Entrevista de desligamento como ferramenta para gestão de pessoas
Quando um funcionário pede demissão, é comum o seu chefe direto querer saber os motivos que influenciaram nessa decisão. O momento de cisão da relação entre o profissional e a empresa, entretanto, poderia ser muito melhor aproveitado se as organizações adotassem a entrevista de desligamento como uma prática estruturada e constante na gestão de pessoas
Normalmente, por não possuir mais nenhum laço com a empresa, o ex-funcionário se sente à vontade para falar sobre questões que dizem respeito não só ao clima organizacional, mas também à política de remuneração e à estratégia de negócios da companhia.
Os dados extraídos dessa conversa acabam se mostrando preciosos. Podem sinalizar a necessidade de mudanças de rumo nos processos da área de recursos humanos ou mesmo a revisão das competências dos pares e do gestor desse colaborador que está de saída.
Há empresas em que as informações oriundas da entrevista de desligamento geram indicadores mensais que são enviados à diretoria, que por sua vez distribui às gerências para que sejam realizados planos de ação.
Quando há, por exemplo, avaliações negativas com incidência relevante sobre o gestor de uma determinada área, o respectivo líder, por solicitação do RH, conversa com esse profissional e, se necessário, traça um plano de desenvolvimento individual para auxiliá-lo a corrigir os desvios identificados.
Sem contar a obtenção de informações que dificilmente seriam conseguidas no dia a dia, como por exemplo aquelas referentes a entraves operacionais, e que por isso nem chegam ao conhecimento do nível gerencial.
A entrevista de desligamento acaba por gerar também um estudo sobre a rotatividade na empresa, pois apresenta as principais razões que levam à saída dos profissionais. Daí o RH consegue obter, por exemplo, dados sobre faixa salarial, benefícios, remuneração variável e por que não dizer um benchmarking da prática do seu mercado de atuação.
É claro que toda e qualquer informação passada por um ex-funcionário em uma entrevista de desligamento precisa ser cuidadosamente avaliada para não resultar em situações constrangedoras. É por isso que uma das premissas da aplicação dessa ferramenta é que o profissional do RH responsável por conduzir a entrevista seja muito bem preparado, imparcial e idôneo.
A entrevista de desligamento é como se fosse “a voz do povo”. É uma oportunidade para a empresa avaliar seus processos, suas lideranças e, por que não dizer, suas estratégias de negócio. Este momento não deve ser encarado pura e simplesmente como uma ruptura. Assim como no período em que permaneceu na organização, o colaborador que pede demissão pode sim dar uma última contribuição.
Carla Machado é diretora de RH da ADP, formada em Administração de Empresas e Economia pela Universidade Mackenzie, pós-graduada em Marketing, MBA em Administração de Recursos Humanos pela FGV/SP e MBA em Recursos Humanos pela FIA/USP

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